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28.08.2017

Os perigosos efeitos da vala comum

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Há um dilema que nunca se resolve completamente para quem estuda assuntos ligados à política e à sociologia: trata-se da dinâmica do exemplo e de sua influência sobre o padrão moral da população. Explico por meio de uma pergunta simples: a conduta ética de uma nação se forma de cima para baixo ou de baixo para cima? Em outras palavras, essa conduta média é produto das escolhas morais da população em geral, que influenciam positiva ou negativamente a classe política? Ou então é mais produto de quem exerce o poder, cujos atos estimulam as demais pessoas? É mais a sociedade ou são mais os poderosos que criam o padrão moral de um país?

Na verdade, como boa parte dos temas da área das ciências humanas, essas perguntas não têm respostas matemáticas. Os dois processos fazem parte de um mesmo contexto. São ciclos que causam influências recíprocas. Uma população bem formada, com sólida base moral, tende a gerar uma casta política mais elevada. E o contrário também é verdadeiro. O fator relevante, nesse caso, é a representação. Ao votar, as pessoas inevitavelmente projetam um pouco de si e dos seus valores. Os políticos são, portanto, pelo menos em alguma medida, o retrato moral do povo que representam.

O outro processo se dá com base no exemplo simbólico. Quando personalidades têm comportamento eticamente elevado ou rebaixado, uma vez que são conhecidas por grandes massas populacionais, suas atitudes influenciam no comportamento de quem as acompanham. Com os políticos, que têm públicos bem amplos e alta cobertura da imprensa, também é assim. Os malfeitos, como é mais comum de acontecer, geram uma ambiência propícia para a imitação negativa. Seja pobre ou rico, muitos se sentem autorizados a delinquir com o que é público ou alheio.

Hoje, no país, vivemos o ápice desse processo depreciativo nas duas direções. O padrão do comportamento moral médio da sociedade certamente está longe de uma condição ideal ou desejável. E a classe política, fruto das escolhas da própria população, agrava e aprofunda ainda mais essa crise de valores. É um círculo vicioso. É verdade que há uma indignação latente de uma maioria silenciosa, que não compactua com isso, mas a maldade se organiza de maneira mais rápida e eficiente.

Hoje, tanto na política quanto no seio social, as forças do bem – por assim dizer – estão subjugadas a um aparente domínio dos aproveitadores e dos espertalhões de toda a ordem. E eis que a descrença se tornou um sentimento preponderante. Isso gera o perigo da vala comum, também chamada de generalização. Mesmo parlamentares ou membros do Executivo com história ilibada e procedimento correto no trato da coisa pública, são jogados para um conceito negativo igual aos que delinquem. Corruptos e honestos, não raras vezes, no afã do denuncismo, acabam misturados como se fossem a mesma coisa. Na ponta popular, não raras vezes os honestos são tratados como trouxas e desestimulados a prosseguir nesse caminho.

A consequência desta grave crise política em que o país se encontra é o desencanto da população e a rejeição à própria política. É um processo realmente doentio, porque gera uma indignação passiva e uma revolta improdutiva, sem capacidade de reação construtiva. E, de arremate, vem o descrédito das próprias instituições, o que é ainda mais grave do ponto de vista democrático. Temos um ambiente tenso de lado a lado, nos parlamentos e na sociedade, com agressões verbais e até físicas. A razão perde para o fanatismo e a passionalidade. A política ficou mais para “ser do contra” do que para defender uma causa. Abre-se espaço para discursos extremistas e candidatos aventureiros. E cresce, em alguns segmentos, até mesmo a nefasta ideia de intervenção militar.

O caminho da má política é a boa política. Não tem outro jeito. De cima para baixo, de baixo para cima. É a hora dos líderes de verdade, dos cidadãos conscientes, de todos quantos possam ter qualquer força para formar opinião. É hora de reforçar as instituições por meio de uma profunda reforma, especialmente do sistema político e eleitoral. Não com o remendo que estão propondo, mas com uma mudança que recoloque a sociedade no centro das decisões do país. Precisamos sair da vala comum, porque esse atolamento só beneficia os omissos, maldosos e corruptos.