Artigos em Destaque

 

19.12.2016

Um 2017 de superação e de virada!

por

 

Todos sabem que tenho muitos anos de experiência na condição de observador social, por assim dizer. Na política, fui de vereador a governador do Estado. Passei pela Assembleia Legislativa e pela Câmara dos Deputados. Na trajetória profissional, além de cursar odontologia e direito, fui professor de cursinho pré-vestibular. Todas as minhas atividades, portanto, sejam públicas ou privadas, sempre me exigiram um olhar atento ao cotidiano do país.

Recupero isso para testemunhar que, em todos esses anos, nunca vi um momento tão singular – negativamente – como este que estamos vivendo no Brasil. E escreve aqui alguém que é, por essência, um otimista. Mas, para além do estado de espírito que possamos ter, a realidade apresenta dificuldades em quase todas as direções.

Há, em primeiro lugar, um clima pesado no ambiente anímico da população em geral. Não é difícil constatar. As pessoas andam mais tensas e desesperançadas. As redes sociais, que já foram consideradas um desfile de boas novas, passaram a ser palco de conflitos, ataques e invasão de privacidade alheia. A segurança, sem uma política pública nacional para a área, muitas vezes fica fora do controle. As pessoas estão com medo, acuadas. E o desemprego, que já chegou a mais de 12 milhões de famílias, causa uma sensação geral de risco profissional e financeiro.

A política não tem ajudado. Pelo contrário. O governo do presidente Temer teve iniciativas acertadas, como a proposta do teto de gastos e a abertura de discussão sobre a reforma da previdência. Podemos discordar de um ou outro ponto entorno dessas duas pautas, mas ambas precisavam vir à roda do debate nacional. Porém, essas medidas, mesmo que profundas, não serão suficientes para recuperar a esperança do brasileiro. Para o cidadão descrente, tudo soa como paliativo, até porque eventualmente afeta seus interesses diretos – como no caso da previdência.

O governo precisará avançar em reformas estruturantes mais profundas, demonstrando vitalidade e propósitos claros no sentido de fazer um governo que seja, ao mesmo tempo, de transição e de transformação. Essa condição precisa ficar explícita nas atitudes políticas. Tenho defendido, a propósito disso, que o governo proponha a convocação de uma assembleia constituinte revisora, com responsabilidades predefinidas. Exemplo: reforma política e tributária e revisão do pacto federativo. Isso poderia ocorrer em concomitância à próxima eleição ou mesmo antes, se houver viabilidade. Mas o fato é que só uma mudança profunda como essa seria capaz de revigorar alguma crença no futuro.

O governo também cambaleia com a exposição de alguns de seus principais líderes nas investigações em curso. Mesmo que as delações ainda precisem ser avaliadas no conjunto probatório, o estrago, em termos políticos, já está feito. Que bom que as averiguações avancem com liberdade e celeridade. Se isso não estivesse acontecendo, seria o pior dos mundos. Ocorre que os efeitos paralelos, com implicação na política e na economia, precisam ser administrados em paralelo. E o Brasil não tem sido capaz de fazer isso adequadamente.

A crise política tem também uma dimensão moral. Refiro-me a questões gerais – e visíveis – como a desagregação da família, a descrença nas autoridades e a carência de líderes. Olhe-se para o lado e procure-se o nome de grandes lideranças que tenham surgido no país nas últimas décadas. As novidades, quase todas, foram meramente fugazes. E isso não é apenas nos partidos, mas atinge praticamente todas as áreas: religiosa, econômica, social, jurídica, sindical, artística, acadêmica. Faltam-nos referências. As pessoas se voltaram para suas individualidades, enquanto o mundo social ficou praticamente desguarnecido de bons quadros. Isso é grave.

A economia demora a dar respostas. As projeções para o próximo ano ainda são negativas. No máximo, sinalizam um levíssimo crescimento – muito menor do que precisamos para reativar o calor dos mercados para os negócios. A equipe do Ministério da Fazenda é tecnicamente bem preparada, mas não pode ficar refém de uma pauta apenas financista ou rentista. O Brasil não voltará aos trilhos sem revisar a alta taxa de juros e o câmbio excessivamente valorizado. Tal mudança acarretará, quase que diretamente, a retomada do crescimento econômico.

Ora, quando um país não coloca em curso toda a sua capacidade produtiva, quaisquer medidas de estabilização ou crescimento tendem a ser insuficientes ou meramente temporárias. O reequilíbrio só se dará com o retorno da confiança e da força das empresas nacionais. Sem isso, não haverá geração de emprego e aumento de arrecadação. A recuperação precisa vir com a diminuição dos gastos públicos e, ao mesmo tempo, com o estímulo ao crescimento.

Temos todos esses problemas, é verdade. Mas, em contrapartida, temos uma fortaleza chamada Brasil. Nosso país é fértil e exuberante, nosso povo é inventivo e trabalhador. Estamos entre os maiores produtores mundiais de alimentos. Temos vastidão ambiental e cultural. Somos muitos, somos diversos. Nossas instituições de fiscalização e controle evoluíram. Algumas sujeiras estão saindo debaixo do tapete, e isso é bom. Mesmo que dê espirro ou até mesmo enoje, melhor que saibamos de tudo. Nada, nem ninguém, irá solapar as esperanças dos brasileiros.

Se nunca vi uma crise desta proporção em toda a minha vida, conforme relatei no começo, também nunca vi tamanha oportunidade para acontecer uma grande virada. É assim na realidade da gente, no trabalho, no cotidiano de qualquer pessoa, família ou empresa: quando tudo parece dar errado, eis que surge o ímpeto para parar, recomeçar e dar a volta por cima.

Espero que o governo Temer tenha habilidade, competência e capacidade de fazer a transição para 2018, entregando um país melhor para seus sucessores. Desejo que todas as investigações em curso possam ir às últimas consequências, respeitando a presunção de inocência, mas condenando todos os que delinquiram fazendo uso do dinheiro público.

Que 2017 seja, pois, o ano da superação e da virada. Com fé, trabalho, senso crítico e espírito democrático, nós vamos sair desta grande crise mais forte do que entramos. Creio nisso. Feliz e abençoado Natal! E um Ano Novo repleto de vitórias!