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31.10.2016

As urnas, seus recados e suas consequências

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Alguém disse que o eleitor acerta sempre, mesmo quando está errado. Essa aparente contradição, na verdade, sugere que o recado das urnas deve ser entendido. E realmente é possível recolher e interpretar esses sinais, mesmo quando eles são erráticos. Por trás dos números de um processo eleitoral, há sempre um sentimento que tentou desabrochar. E que precisa, no mínimo, ser compreendido e respeitado.

Nas eleições municipais, esse recado normalmente é mais difuso. Isso porque cada município tem uma realidade política absolutamente específica. As disputas se dão em circunstâncias singulares, dependendo dos nomes, da avaliação dos governos e das pautas da cidade. Neste ano, entretanto, não há dúvida de que, mesmo diante dessas peculiaridades locais, o eleitor criou uma narrativa geral.

Ficou evidente, por exemplo, a busca de uma renovação nos métodos políticos. Mesmo quando optou por nomes mais tradicionais e conhecidos, o cidadão exercitou a possibilidade de descobrir novos caminhos. A crise política, econômica e ética gerou, claramente, uma grande desesperança da população em relação ao atual sistema de partidos e instituições. Em muitos casos, estimulou até mesmo a negação da política.

Esse fenômeno se fez sentir, principalmente, no grande número de abstenções e votos nulos e brancos. Em muitas cidades, a soma dos eleitores que fizeram essas opções foi maior do que aqueles que escolheram o candidato vitorioso. Isso pode gerar falta de interesse, envolvimento e compromisso com a dinâmica da vida comunitária. Os novos eleitos precisarão resgatar esses cidadãos que se afastaram do processo eleitoral.

Outra dimensão desse quadro de descrédito foi a procura por candidatos que representassem uma nova esperança. Ou uma nova política, como muitos disseram em seus discursos. Esse ímpeto é positivo, mas também deu margem a propostas irresponsáveis e demagógicas que, se soaram como música na boca de sedizentes novidades, provavelmente não conseguirão ser cumpridas. As prefeituras entrarão, já no próximo ano, num quadro de ainda maior dificuldade financeira.

Apesar disso, como se disse, não se pode desprezar o recado do eleitor em relação à fadiga dos metais da política convencional. É uma advertência séria aos partidos, que abdicaram de formar quadros com melhor preparo técnico e intelectual. É um cansaço com o sistema, que induz à reprodução de nomes e práticas que já não são mais aceitas pela população. E é, também, uma sinalização de esperança, na medida em que a população se mostra aberta a transformações estruturais.

Não acredito tanto em viés ideológico do resultado destas eleições. Claro que o PT pagou o preço pelos graves erros que cometeu nos últimos anos. Mas não se pode dizer quer que houve uma migração pura e simples para a direita, tanto que os extremistas não chegaram muito longe. Todavia, é inegável que o brasileiro mostrou que quer governos mais eficientes, menos prometedores, menos corporativos, mais atentos ao interesse comum. Que enfrente zonas de conforto. Com maior resultados e menos desculpas. Menos rendidos ao sistema e mais conectados à população.

Toda escolha gera consequências. E não será diferente em relação às feitas nesta eleição. Haverá frustrações e positivas confirmações. Mas para que mudanças substanciais ocorram nas gestões municipais, o Brasil precisará colocar em curso a mudança no seu pacto federativo. Não canso de repetir: não é aceitável que um país como o nosso, com viés tão comunitário, submeta os municípios às decisões de um poder excessivamente centralizado em Brasília – tanto em termos políticos quanto tributários.

Os prefeitos precisam, portanto, incorporar essa perspectiva política ampliada em suas missões. Para além de gerir suas cidades, devem construir uma agenda comum de transformação das relações federativas da nação. Os municípios precisam ter, na organização institucional, a dimensão que realmente possuem na vida real. Esse é um dos caminhos mais efetivos para dar respostas concretas à população. É a nova política na prática.