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17.10.2016

A retomada passa pela indústria

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Temos analisado, em nossos espaços, as diferentes dinâmicas da retomada de crescimento do país. Há sinais positivos, ainda que tímidos, em relação aos movimentos do governo na área econômica. O presidente Michel Temer, ao escolher nomes técnicos e de reconhecida competência, blindou a equipe de pressões políticas circunstanciais. Todavia, não se pode imaginar que o Brasil voltará aos trilhos sem enfrentar a alta taxa de juros e o câmbio excessivamente valorizado. Também precisa manter a inflação num nível baixo e estável e adotar uma carga tributária menor, com um modelo mais simples e justo.

Esses fatores afetam diretamente a produção. E quando um país não coloca em curso toda a sua capacidade produtiva, quaisquer medidas de estabilização ou crescimento tendem a ser insuficientes ou meramente temporárias. Não se pode vislumbrar o mercado somente por um prisma rentista, pois tal raciocínio beneficia os setores financeiros, já bem aquinhoados nos últimos anos. Agora é necessário recuperar a confiança e a força das empresas nacionais. Só isso dará consistência a um novo ciclo de desenvolvimento, com geração de emprego e aumento de arrecadação.

É por isso que o Brasil deve colocar no topo das suas prioridades o avanço da indústria. E, nesse contexto, destaco a indústria de transformação – que gera mais valor agregado e tem altos ganhos de produção. Faz muito tempo que, sem uma reação correspondente, o país permitiu a diminuição e a deterioração de seu parque industrial. Além de não ter uma política de planejamento e de estímulo, não cuidou de proteger o mercado nacional das investidas muitas vezes ilegais de alguns países. Incrivelmente, viramos as costas para o setor que pode dar respostas mais fortes e rápidas em termos de crescimento.

Os Estados Unidos cometeram esse mesmo erro, uma das causas centrais de sua última grande crise. O leitor deve lembrar a onda de demissões das indústrias, inclusive das grandes multinacionais automotivas. Havia filas de desempregados nas portas de fábricas, uma cena inimaginável para a principal potência econômica mundial. Não demorou muito, porém, para que os americanos percebessem esse problema como uma das raízes, com grande efeito cascata, da depressão em que o país entrou. Medidas de incentivo, proteção e facilitação começaram a ser tomadas. Hoje, mesmo com dificuldades pontuais comuns ao cotidiano do mercado, a pujança da indústria norte-americana voltou a dar sinais de vida.

Trago esse exemplo para mostrar que é possível seguir um caminho semelhante, ressalvadas as peculiaridades de cada caso. O fato é que o Brasil tem enorme potencial produtivo, capaz de provocar essa tão desejada aceleração. Para isso, o parque industrial deve ser renovado, o que depende de financiamentos competitivos. O novo presidente da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos), João Carlos Marchesan, tem defendido corretamente a superação de pelo menos dois gargalos: a ampliação dos prazos de recolhimento de impostos e contribuições; e a escassez e o custo do capital de giro vigente no mercado. Essas são também duas das principais causas da inadimplência fiscal, o que impede o acesso a financiamentos. Os débitos atrasados, dentro das condições possíveis, também precisam ser repactuados.

Nosso país, enfim, deve olhar diferente – proativamente – para quem gera emprego, trabalha e produz. O aparato estatal, que depende da arrecadação, não pode ter mais uma postura adversa em relação aos setores produtivos. É necessário mudar o software de como se pensa o desenvolvimento brasileiro, o que inclui desburocratizar, simplificar e estar ao lado da sociedade. No caso nacional, claro, deveria haver uma ampla reforma do sistema tributário, como referi no começo. Mas, até que isso não ocorra, é possível construir avanços pontuais, a partir especialmente de uma mudança de mentalidade. Essa nova postura também há que tratar melhor a área da tecnologia e da inovação, capazes de impulsionar todos os setores da economia. Precisamos, enfim, de uma vez por todas, ter uma política industrial.

Somos uma terra abençoada pela potencialidade da natureza, por um povo trabalhador, inventivo e com grande capacidade de resposta. Há uma nação inteira querendo emprego, produção, fluência financeira, atividade econômica, enfim, mais prosperidade, justiça social e equilíbrio socioambiental. O presidente Temer tem apenas dois anos pela frente. Se tiver habilidade política, visão estratégica de país e coerência na gestão econômica, dará tempo suficiente para, pelo menos, preparar o Brasil para um novo momento. Mas não pode esquecer a nossa indústria. Vamos acompanhar e cobrar.